quarta-feira, 2 de abril de 2025

Missão Amar-te - mARCIANO


1 2 Vidas (Marciano Homem de Marte/Jorge Vaz Dias)   1:18
2 Bissectriz (Marciano Homem de Marte)   4:06
3 Gaia (Marciano Homem de Marte)   3:14
4 Roleta Russa (Marciano Homem de Marte)   5:22
5 Missão Amar-te (Marciano Homem de Marte)   4:16
6 O Tempo Não Volta Atrás (Marciano Homem de Marte)   2:55
7 Punhado De Areia (Marciano Homem de Marte/MC Santiago)   1:32
8 Este Coração Não É O Meu (Marciano Homem de Marte)   4:45
9 Soldado (Francisco J. Resende)   5:05
10 Sem Remédio (Marciano Homem de Marte/F. Espanca)   4:05
11 Meumorial (Marciano Homem de Marte)   4:40
12 Tremor (Marciano Homem de Marte)   5:20
13 Costas Em Costas (Jorge Vaz Dias)   1:06

É difícil desassociar Marte como um símbolo bélico. Com origem na mitologia romana, como denominação divina do deus da guerra, o nome de Marte seria depois usado para batizar o quarto planeta do nosso sistema solar. Em 1898 foi publicado o fantástico livro "The War of the Worlds", em que H.G. Wells fantasia uma invasão extra-terrestre praticada por Marcianos que pretendem dominar a Terra. Nas vésperas do início da 1ª Guerra Mundial, Gustav Holst concluía a suite orquestral "The Planets" e atribuia a Marte o sub-título "The Bringer of War". Em tempos mais próximos, no ano de 1996, Tim Burton realizou "Mars Attacks!" uma obra cinematográfica centrada numa caótica invasão Marciana. Estes são apenas alguns exemplos conhecidos do simbolismo bélico de Marte, outros mais haverão. 

Chegados a 2025, deparamos-nos com um mundo algo insano em que neste momento parece que a única coisa que nos falta mesmo acontecer seria uma invasão extra-terrestre. No entanto, com um subtil jogo de palavras, mARCIANO inverte todo o sentido de uma inquietante viagem científica ao planeta belicoso e torna-a numa demanda pelo amor mais puro, em busca da única força que pode realmente unir, e convida-nos a todos para participar nela.

De novo em edição de autor, "Missão Amar-te" confirma mARCIANO como um herdeiro legítimo do cançonetismo português, capaz de expressar a sua sinceridade musical em canções pop de tonalidade mais escura e adulta, intimamente emolduradas por uma dinâmica maquinal que complementa a firme aliança de uma secção rítmica bem presente e enquadrada, composta por Rui Geada, no baixo, e Nuno Francisco, na bateria. David Wolf colaborou nos arranjos, nas guitarras e nos sintetizadores, e ainda assumiu todo o trabalho de produção; exceção para as músicas "Bissectriz" e "Missão Amar-te", gravadas anteriormente e produzidas por Paulo Pereira, e "Sem Remédio", uma co-produção mARCIANO/Ricardo Simões.

Amar é a missão e tem na faixa título a força de um hino maior, pleno de esperança e entrega, com tendências evidentes do estilo que se denominou como Música Moderna Portuguesa nos anos de 1980. Neste ponto, mARCIANO explora bem a Portugalidade da sua obra numa carinhosa devoção pelo passado em busca de inspiração divina para o presente. A sentida presença da guitarra Portuguesa de Carlos Amado em "Bissectriz" e "Este Coração Não É Meu", a fiel versão para "Soldado", original dos Sitiados, e a etérea adaptação do poema "Sem Remédio" de Florbela Espanca, reforçam a afeição de mARCIANO pelas suas raízes lusitanas. A poesia tem também o seu espaço próprio no registo, com "2 Vidas" a cumprir as funções de prólogo e "Costas Em Costas" a ser o epílogo. Ambos os poemas são da autoria de Jorge Vaz Dias e são loquazmente declamados pela venerável voz de António Cova. "Punhado De Areia" é o outro poema incluído no álbum e parece cumprir a função de interlúdio, com uma declamação profundamente visceral pela sua autora MC Santiago.

O grito urgente da consciência ambiental de "Gaia", o desespero e impotência do Homem perante a força da brutalidade humana em "Roleta Russa", os laivos neo-classicistas de "O Tempo Não Volta Atrás" e as incríveis reminiscências euro-pop de "Meumorial", são momentos ímpares e conscientes, habilmente convertidos como música eficaz, sincera, direta e muito atual mas ...  ainda há ... "Tremor", uma música extraordinária em que, logo numa primeira audição, temos a sensação de que fez sempre parte da nossa vida. Tem uma dimensão imensurável. É intensa, emotiva e arrepiante, extraordinariamente arrebatadora, e encontra-se envolvida pelo efeito mágico dos inebriantes violinos elétricos do britânico Matt Howden, mais conhecido pelo seu projeto solo como Sieben.

O álbum está editado nos formatos digital, vinil e CD, e pode ser adquirido em https://marcianodemarte.bandcamp.com/album/miss-o-amar-te ou escutado nas habituais plataformas digitais.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Back To Back - THE BRECKER BROTHERS BAND


 Lado A
1 Keep It Steady (Brecker Bump) (S. Khan/R. Brecker/D. Sanborn/L. Vandross)   6:20
2 If You Wanna Boogie ... Forget It (S. Khan/W. Lee/D. Grolnick)   3:52
3 Lovely Lady (R. Brecker/A. Willis/C. Crossley)   6:11
4 Night Flight (M. Brecker)   6:12
 Lado B
1 Slick Stuff (R. Brecker)   4:44
2 Dig A Little Deeper (W. Lee/D. Grolnick/A. Willis/D. Lasley)   3:57
3 Grease Piece (M. Brecker/R. Brecker/D. Sanborn/S. Khan)   5:41
4 What Can A Miracle Do (D. Grolnick/L. Vandross)   4:10
5 I Love Wastin' Time With You (M. Brecker/A. Willis/C. Crossley)   6:27

Editado em 1976, 'Back To Back' corresponde ao segundo álbum de estúdio dos Brecker Brothers, o notável coletivo norte-americano liderado pelos irmãos Randy e Michael. O núcleo da formação está assente no fluido desembaraço dos instrumentos de sopro, Randy Brecker, no trompete, Michael Brecker, no sax-tenor e na flauta, e David Sanborn, no sax-alto, devidamente apoiados pela destreza elétrica do guitarrista Steve Khan e do pianista Don Grolnick, e a contagiante cumplicidade de Will Lee, no baixo e na voz, ao lado do baterista Christopher Parker. Nomes consideráveis, e já bem firmados, que viriam a ser preponderantes nos anos vindouros.

A formação marcou o seu espaço, bem cedo, na música da década de 1970 com a primazia de uma fusão jazz/rock, bem encharcada na irrequieta estrutura de funky branco, a que não faltava alguma sensualidade soul. A eficácia de vigorosos riffs dos sopros, aliados aos fraseados escorregadios e à intensa expressividade dos solos, proporcionam momento incríveis e extraordinários a que é quase impossível não reagir; "Keep It Steady", "If You Wanna Boogie ...", "Night Flight", "Slick Stuff", "Dig A Little Deeper", "Grease Piece" e "I Love Wastin' Time With You" são peças excitantes, acentuadas por uma dinâmica balanceada e cativante, "Lovely Lady" e "What Can A Miracle Do" são músicas sensíveis, detentoras de uma toada morna e emocional. 

As vozes são também um ponto forte do registo. A prestação vocal de Will Lee é fulcral para o equilíbrio entre o desenvolvimento dos momentos instrumentais e o formato de "canção" com uma entrega desenvolta e determinada, por vezes humorística, mas os arranjos vocais do álbum pertencem a Luther Vandross e o resultado é bem audível. 

E há que não esquecer que Steve Gadd é o baterista de serviço nas faixas que encerram ambos os lados do vinil ...

Obra caraterística de uma época fértil em que a música de fusão procurava expandir fronteiras recorrendo a géneros correntes para experimentar novas ideias, técnicas e instrumentos, e aumentar o potencial de criatividade. Não sendo um álbum fundamental deste período, "Back To Back" carrega a sua essência. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Bummed - HAPPY MONDAYS


1 Country Song (Happy Mondays)   3:23
2 Moving In With (Happy Mondays)   3:36
3 Mad Cyril (Happy Mondays)   4:35
4 Fat Lady Wrestlers (Happy Mondays)   3:24
5 Performance (Happy Mondays)   4:06
6 Brain Dead (Happy Mondays)   3:08
7 Wrote For Luck (Happy Mondays)   6:04
8 Bring A Friend (Happy Mondays)   3:44
9 Do It Better (Happy Mondays)   2:28
10 Lazy Itis (Happy Mondays/Lennon/McCartney)   2:46

Os britânicos Happy Mondays foram os principais protagonistas do último grande ato da Factory Records, mítica editora independente Inglesa fundada por Tony Wilson em Maio de 1978. A par dos New Order, foram uma das bandas que mais rentabilizou o catálogo da histórica editora mas também são acusados, por alguns, de serem um dos principais responsáveis pelo colapso financeiro da Factory Records em 1992. E quem mais, senão Tony Wilson, teria tolerado o descontrolado e insano comportamento de uma banda como os Happy Mondays?

O título que os Mothers Of Invention, de Frank Zappa, usaram para o seu álbum de 1968, cuja capa parodiava o célebre 'Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band' dos Beatles, assenta que nem uma luva aos Happy Mondays através de um simples trocadilho - 'We're Only In It For The ... Drugs'. 

Mais do que uma banda, ou um projeto musical definido, os Happy Mondays eram como um ato de celebração, uma espécie de motivo para curtir o êxtase do momento, e há que não esquecer que estes são os anos de florescimento da cultura rave em Inglaterra, com a cidade de Manchester, berço legítimo da Factory Records e dos Happy Mondays, a servir como cenário de fundo ideal para a festa. E no entanto, apesar de tanta estroinice, os Happy Mondays até que funcionam muito bem a nível musical.
 
Editado em 1988, 'Bummed' corresponde ao segundo registo de estúdio dos Happy Mondays. É uma obra movida pela aspereza de um rock ácido e indefinido que se deixa envolver pelo balanço da música de dança e de algum psicadelismo. O resultado revela uma sonoridade obscura, estritamente balanceada pela consistência de uma massa sonora, impulsionada pela secção rítmica composta por Paul Ryder, no baixo, e Gary Whelan, na bateria. O vocalista Shaun Ryder é uma agradável surpresa pela capacidade nata de prender a atenção com uma expressividade vocal distinta, bem colocada e sempre muito presente. 'Bummed' inclui uma referência histórica, digna de registo. Do outro lado do vidro, envolto no trabalho de produção, esteve Martin Hannett. O célebre produtor associado à sonoridade inicial da Factory Records regressava assim à editora, após se ter afastado em 1982, para voltar a produzir uma banda da casa. 

A mistura de géneros tanto atraía os fans das raves como do indie-rock mas o que despertou o interesse geral na banda foi a força do single "Wrote For Luck", que representa o salto das origens rock da banda para o emergente ritmo pulsante do movimento acid-house. Outro foco de atenção no álbum encontra-se em "Lazy Itis", para a qual foi tomada emprestada, com os devidos créditos, uma parte da harmonia de "Ticket To Ride", dos Beatles. "Mad Cyril" expande-se para além da vulgaridade de uma música pop, "Bring A Friend" ressalta pelo brilho da guitarra de Mark Day enquanto "Moving In With", "Fat Lady Wrestlers" e "Do It Better" destilam a agilidade de alguns dos momentos de maior vitalidade do registo. Madchester a impor-se como a afirmação do movimento cultural britânico que protagonizou a transição geracional da década de 1980 para 1990.  

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Überjam - THE JOHN SCOFIELD BAND


1 Acidhead (Scofield/Bortnick/Murphy)   6:33
2 Ideofunk (Scofield)   4:44
3 Jungle Fiction (Scofield)   5:39
4 I Brake 4 Monster Booty (Scofield/Bortnick/Murphy/Deitch)   4:02
5 Animal Farm (Scofield)   5:36
6 Offspring (Scofield)   6:27
7 Tomorrow Land (Bortnick)   3:58
8 Überjam (Scofield/Bortnick/Murphy/Browden/Rodgers/Hart)   6:53
9 Polo Towers (Scofield)   5:29
10 Snap Crackle Pop (Scofield)   6:02
11 Lucky For Her (Scofield/Bortnick/Murphy)   3:12

Em 'Überjam', editado em 2002, o guitarrista norte-americano John Scofield e a sua jovem banda propõem uma viagem musical eclética que se desenvolve através de um diálogo transcendental entre a espiritualidade de elementos psicadélicos, a destreza da habilidade rítmica do funk e uma definida ideologia de fusão com novos elementos, como o drum'n' bass, o hip-hop e o sampler, em que o jazz serve como um ponto de união determinante, capaz de propiciar a fertilidade de um terreno imensurável para o improviso e para o desenvolvimento de uma linguagem universal, expansiva e moderna, que flutua descontraidamente na espontaneidade de uma pujante  jam session

Trata-se de um registo entusiasmante, muito vívido, impulsionado pelo desejo de criar música nova, abrangendo uma multiplicidade de elementos técnicos e artísticos contemporâneos, numa sintonia perfeita entre o legado histórico de John Scofield e os atributos de uma formação jovem que já o vinha acompanhando em digressão há dois anos. Foi durante esse período de tempo, na estrada, que Scofield se apercebeu do enorme potencial de Avi Bortnick como guitarrista ritmo e um nato manipulador de samples, Jesse Murphy como um baixista com uma grande sensibilidade artística e Adam Deitch como um exímio baterista funk dotado de uma exponente sensibilidade para o jazz. O conceito desta 'Überjam' começou então a ganhar forma através da interação desta formação como banda de apoio de John Scofield ao vivo. O teclista John Medeski e o saxofonista/flautista Karl Denson, viriam a juntar-se depois às gravações em estúdio para participar com algumas colaborações no registo.

O psdicadelismo de "Acidhead" lança o mote com o seu exotismo oriental passando logo de seguida para o sugestivo riff, com algo de linguagem da animação BD, de "Ideofunk". O ritmo não se perde e o perfume drum 'n' bass de "Jungle Fiction" mantém a direção certa do registo e até encaixa bem no fulgor hip-hop de "I Brake 4 Monster Booty", com direito a um breve rap por parte do baterista Adam Deitch. O jazz mostra-se ligeiramente prudente em "Animal Farm" e depois o registo entra numa fase momentaneamente 'pop' com a 'orelhuda' guitarra acústica de "Offspring", logo seguida de uma sugestiva tranquilidade rural em "Tomorrow Land". Sente-se o retorno da pujante essência do registo na base da faixa homónima, que inclui uma curiosa referência a "Blue Moon", e daqui segue-se para o denunciado fraseado à la Weather Report de "Polo Towers", para o show de bateria de Adam Deitch em "Snap Crackle Pop" até o registo concluir com um final moderado, servido pela comedida vertente experimental de "Lucky For Her".

Em cima de tudo isto, John Scofield improvisa ao seu melhor estilo sempre munido da sua guitarra elétrica Ibanez e muitos efeitos, e ainda deixa uma dissimulada referência gráfica, na capa do álbum, a duas individualidades por quem nutre um grande carinho e uma enorme admiração, Susan Scofield, a sua esposa, e Jimi Hendrix.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Crossroads - ERIC MARIENTHAL


1 The Sun Was In My Eyes (Patitucci/Marienthal)   5:50
2 Spoons (Ferrante)   6:42
3 Yellow Roses (Ferrante)   4:01
4 Upside Down (Patitucci/Marienthal)   6:39
5 Schmooze (Gambale)   4:28
6 Cross Country (Patitucci)   8:03
7 Hide & Seek (Patitucci)   5:01
8 Two Bits (Ferrante)   5:40
9 On The Eve Of Tomorrow (Corea)   5:51
10 Rain On The Roof (Patitucci)   6:03

Jazz da costa oeste norte-americana, com selo da prestigiada GRP, categorizado por uma sonoridade moderna, relativamente próxima do que se poderá considerar "comercial" dentro do género - estilo acessível e também denominado, bastas vezes, como smooth jazz. Normalmente, executado por músicos académicos que se prestam a execuções brilhantes com uma linguagem ordenada e muito bem produzida, executada dentro dos padrões lineares da música pop mas sempre focada no expressivo teor da sua inerente qualidade musical.   

'Crossroads' corresponde ao terceiro registo a solo do saxofonista Eric Marienthal, elemento integrante, à data, da Elektric Band de Chick Corea cuja reputada formação participa, à vez, na execução musical desta obra. Para além de Eric Marienthal, o elemento mais preponderante do álbum é o baixista John Patitucci que para além de assumir o trabalho de produção do registo com Marienthal ainda assina algumas das músicas. Os dois músicos são também os únicos elementos permanentes ao longo de todo o registo. Igual destaque para a exponencial prestação do mestre Chick Corea ao piano em três momentos chave do registo, em que o jazz se sente mais vivo através das músicas "Upside Down", "Cross Country" e "On The Eve Of Tomorrow". De entre os elementos da Elektric Band, o baterista Dave Weckl é quem acaba por ter uma participação mais discreta cingindo-se à moderada ambiência de "Schmooze", música que tem a assinatura do guitarrista Frank Gambale, o único elemento da Elektric Band que não participa neste registo. Aliás, não há lugar para guitarras neste álbum.

Mas nem só os elementos da Elektric Band são fundamentais para o admirável resultado final desta obra. O pianista Russell Ferrante, membro fundador dos Yellowjackets, banda também associada ao catálogo da GRP, imprime aqui muito do seu estilo, aromatizando naturalmente o registo com alguma da essência que carateriza o teor da sonoridade dos Yellowjackets, bem percetível em "Spoons" e "Yellow Roses", duas das composições que Russel Ferrante assina para este álbum. Junta-se ainda uma terceira composição de sua autoria, "Two Bits", exposta na tranquilidade de uma peça acústica que Marienthal rasga com o sax-soprano.

A registar ainda a forte importância de John Patitucci em algumas composições, particularmente interessante na vitalidade de "The Sun Way In My Eyes" e nas já mencionadas, "Upside Down" e "Cross Country", e as fantásticas prestações rítmicas de um irrepreensível Vinnie Colaiuta e de uma segura e consciente Terri Lyne Carrigton na bateria. Dave Witham e John Beasley, ambos nos teclados, têm prestações menos evidenciadas mas bem presentes, a que se junta ainda o nome de Alex Acuña, na percussão, para complementar as participações neste registo. 

Álbum efetivamente pontuado pela referência de nomes sonantes e capazes de sustentar toda a sua relevância com uma prestação exímia, resultante de sessões de gravação ao vivo em estúdio de forma a manter o contato entre os músicos e obter uma interação musical entusiástica e espontânea. 'Crossroads' comprova o fervor de uma atmosfera vibrante que resulta da conexão destes músicos com uma linguagem universal que os une sob a forma de .. música.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

The Art Of Tea - MICHAEL FRANKS


1 Nightmoves (M. Franks/M. Small)   4:03
2 Eggplant (M. Franks)   3:34
3 Monkey See - Monkey Do (M. Franks)   3:33
4 St. Elmo's Fire (M. Franks)   3:58
5 I Don't Know Why I'm So Happy I'm Sad (M. Franks)   4:16
6 Jive (M. Franks)   3:16
7 Popsicle Toes (M. Franks)   4:35
8 Sometimes I Just Forget To Smile (M. Franks)   3:45
9 Mr. Blue (M. Franks)   4:03 

Para além de deter um dos timbres vocais mais melosos dentro do jazz vocal mais comercial, Michael Franks revela uma venerável capacidade intelectual para escrever letras interessantes, em que aborda questões de caráter íntimo, imprimindo-lhes uma dimensão musical extrovertida e particularmente inteligente, exprimindo-se de uma forma divertida, sensual e muito própria. No entanto, até que ponto se poderá considerar este registo como jazz?

Para complicar a questão, Michael Franks está aqui acompanhando por uma formação de luxo com reconhecidas bases no ... jazz. A expressiva presença de três elementos dos Crusaders - Joe Sample (piano), Wilton Felder (baixo) e Larry Carlton (guitarra) - ajuda à elevada importância deste registo, a que ainda se junta o baterista John Guerin e as prestações pontuais de David Sanborn (sax-alto) e Michael Brecker (sax-tenor). As composições são todas assinadas por Michael Franks e apresentam a envolvente fragilidade de uma textura doce, macia, serena e extremamente agradável, capaz de cativar um vasto grupo de ouvintes desde o jazz, ao rock e até à pop ou mesmo à soul music

Apesar de uma experiência discográfica anterior, é a partir daqui que a obra de Michael Franks começa a ganhar expressão. Editado originalmente em 1975, 'The Art Of Tea' é realmente uma beleza de álbum, a que é difícil não se dar a devida importância. Registo muito detalhado e inteligente para ser rock, e muito melodioso e correto para ser jazz, caraterizado por uma sobriedade inerente a que não será alheia a postura tímida e erudita de Michael Franks. A excelência dos músicos completa o teor qualitativo do registo da melhor forma, através de uma leitura impecável das composições originais a que ainda se acrescenta o cunho pessoal que compõe a sonoridade de cada um destes músicos.

A perfurante guitarra de Larry Carlton em "Nightmoves", os dotes culinários de "Eggplant", o sax-alto de David Sanborn na delicada relação de "Monkey See - Monkey Do", o calor afetuoso que adorna a irresistível tonalidade de "St. Elmo's Fire", a contradição patente em "I Don't Know Why I'm So Happy I'm Sad", o vigoroso sax-tenor de Michael Brecker em "Jive", a cativante disposição de "Popsicle Toes", a proximidade blues de "Sometimes I Just Forget To Smile", a colorida delicadeza de "Mr. Blue" e, por fim, a presença incrível de Joe Sample em todas as frentes do registo, fazem deste álbum uma obra de referência.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

A Jazzy Way - MARIA ANADON featuring FIVE PLAY


1 Old Devil Moon (E.Y. Harburg/B. Lane)   3:46
2 I Don't Know What Time It Was (L. Hart/R. Rodgers)   4:40
3 Confirmation (S. Jordan/C. Parker)   3:33
4 Comes Love (Sam H. Step/C. Tobias/L. Brown)   4:13
5 My One And Only Love (R. Mellin/G. Wood)   6:17
6 Stolen Moments (M. Murphy/O. Nelson)   4:21
7 Black Coffee (Paul F. Webster/S. Burke)   3:36
8 Devil May Care (T. Kirkley/B. Dorough)   2:51
9 Wouldn't It Be Loverly (Alan J. Lerner/F. Loewe)   3:50
10 You Don't Know What Love Is (D. Raye/Gene de Paul)   4:53
11 I'm Old Fashioned (J. Mercer/J. Kern)   2:57
12 Tenderly (J. Lawrence/W. Gross)   5:10
13 The Best Is Yet To Come (C. Leigh/Cy Coleman)   4:04
14 One Note Samba (J. Hendricks/António C. Jobim/N. Mendonça)   1:29

A baterista norte-americana Sherrie Maricle lidera a orquestra de jazz Diva, totalmente composta por elementos femininos, a partir da qual criou o quinteto Five Play, em 1999, em que a formação tem por base a secção rítmica da orquestra - Sherrie Maricle, na bateria, Noriko Ueda, no contrabaixo, e Tomoko Ohno, no piano - a que se juntam depois dois solistas - Jami Dauber, no trompete, e Janelle Reichman, no sax-tenor e no clarinete. Para este registo de 2006, intitulado 'A JazzyWay', o quinteto reformulou-se numa nova versão, denominada Five Play's Women of the World, em que os dois solistas foram "substituídos" pela Israelita Anat Cohen, em sax-tenor e clarinete, e pela cantora Portuguesa Maria Anadon.

O início do percurso discográfico de Maria Anadon pelos meandros do jazz português deu-se em 1995 com a edição do álbum 'Why Jazz?', gravado em Paço D'Arcos com suporte do quarteto feminino norte-americano Unpredictable Nature, que consistia na primeira pequena formação saída da estrutura da Diva Jazz Orchestra, onde já pontuava a baterista Sherrie Maricle. Onze anos depois, Anadon e Maricle reencontraram-se para a gravação de um novo álbum mas desta vez em terras norte-americanas, com passagem obrigatória por Nova Iorque, onde o caminho do jazz se fez sob a essência das lendas e onde Maria Anadon se sentiu dentro do sonho.

Obra de gabarito - muito deliciosa, segura, tranquila e persuasiva - em que Maria Anadon e as Five Play demonstram ter swing e jazz, muito jazz, para agarrar um repertório estritamente dominado por música norte-americana, e um ligeiro piscar de olho, mesmo para terminar, à música de expressão portuguesa com uma passagem rápida pela obra de António Carlos Jobim para Maria Anadon dar um ar da sua graça na sua língua materna. 

O registo desenvolve-se entre a decente interpretação de Maria Anadon e as notáveis intervenções de Anat Cohen, com o distinto apoio de uma atenta e desembaraçada secção rítmica que se move na firmeza de uma execução experiente e muito segura, garantido assim a autenticidade deste trabalho. O resultado final conclui-se como uma obra exemplar e dignificante que fica registada como o terceiro trabalho a solo de Maria Anadon.