segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Life - SIMPLY RED


1 You Make Me Believe   3:51
2 So Many People   5:19
3 Lives And Loves   3:21
4 Fairground   5:33
5 Never Never Love   4:19
6 So Beautiful   4:58
7 Hillside Avenue   4:45
8 Remembering The First Time   4:43
9 Out On The Range   6:00
10 We're In This Together   4:14  

Depois de Stars em 1991, os britânicos Simply Red voltavam a mostrar vida em 1995 com Life. Um trabalho adulto e distinto que cumpre os habituais padrões qualitativos dos trabalhos anteriores dos Simply Red e que compõem a importância da soul britânica contemporânea, com um leve aroma pop e jazzMick Hucknall mantém a liderança da banda que formou em 1984 e aproveita a sequência das três primeiras músicas para arrasar logo de início espalhando o seu charme e classe, caraterísticas que conserva ao longo de todo o registo apesar da inclusão de três músicas distintas que ameaçam a perda de alguma identidade mas conclui-se que a sua inclusão é perfeita e eficaz e transmite alguma diversidade a este trabalho; "Fairground" é dominada pela ambiência latina da batucada (um sampler da música "Give It Up" dos The Goodmen, que por sua vez utilizaram um sampler de "Fanfarra" de Sérgio Mendes) e promove uma inquieta vontade de dançar. Foi o single que serviu de apresentação ao álbum e cometeu a proeza de ser o primeiro single da banda a alcançar o primeiro lugar no top UK. "Hillside Avenue" explora o terreno do reggae. Nos créditos estão mencionados os nomes de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, bateria e baixo respetivamente, sem especificar em que músicas participam. Sendo a dupla bem conhecida pelas suas lendárias prestações no género só podem estar mesmo aqui. Um bom enquadramento de estilos que resulta noutro momento pulsante. "We´re In This Together" é a música que encerra o álbum e move-se numa área mais espiritual com a participação do grupo coral Umoja Singers Chorale. Esta música viria a ser escolhida no ano seguinte, pela UEFA, como a música oficial do Euro 96. O restante trabalho move-se na dinâmica habitual dos Simply Red e depois da delícia da já mencionada sequência inicial surge ainda a cálida "Never Never Love", a inquestionável formosura de "So Beautiful", a incontornável "Remembering The First Time" e o odor funky de "Out On The Range". Há realmente vida neste trabalho.

domingo, 18 de outubro de 2020

Under The Iron Sea - KEANE


1 Atlantic   4:12
2 Is It Any Wonder?   3:05
3 Nothing In My Way   3:58
4 Leaving So Soon?   3:58
5 A Bad Dream   5:02
6 Hamburg Song   4:36
7 Put It Behind You   3:36   
8 Crystal Ball   3:52   
9 Try Again   4:26
10 Broken Toy   6:06         
11 The Frog Prince   4:20

Em Under The Iron Sea, o segundo trabalho de estúdio para os britânicos Keane, editado em 2006, a nobreza das canções pop permanece altiva numa formação que continua a não incluir guitarras mas que teve aqui o arrojo de puxar um pouco mais pelos décibeis. O registo encontra-se afligido por uma ligeira excitação de volumes o que cria uma leve distorção, bastante evidenciada no single "Is It Any Wonder?" cujo efeito de piano distorcido ameaça um riff de guitarra e cria uma dinâmica mais rock do que pop, que se mantêm ativa ao longo do registo. Provavelmente, fruto de uma ideia pré-concebida para compensar a falta de enchimento de outros instrumentos que não existem ou mesmo uma tentativa de aproximação a uma sonoridade mais próxima do rock, mas trata-se de um recurso desnecessário porque as músicas são bastante ricas em harmonia e é por isso que funcionam tão bem. Numa banda em que a voz é sustentada essencialmente por um piano e por uma bateria, os Keane continuam a possuir a capacidade de criar canções bonitas, plenas de harmonia pop, e têm na voz de Tom Chaplin um enorme ponto de honra; a vontade que dá de cantar com ele mas não esquecer que é o pianista Tim Rice-Oxley quem assume o trabalho de escrita e composição e grava inclusive os baixos. 
Under The Iron Sea esconde-se por trás de um reino de fantasia cuja aurora se dá com os cautelosos acordes de "Atlantic", ou o despertar de um sonho, mas tudo se solta logo de seguida com a energia de "Is It Any Wonder?". A pureza e cristalinidade pop com que os Keane deliciaram as audiências no primeiro álbum surge bem destacada em "Nothing In My Way" seguindo-se depois um registo ligeiramente diferente em "Leaving So Soon?" com alguma maturidade sonora e um dos momentos mais moderados deste trabalho. "Bad Dream" é um momento emotivo e arrepiante, outra das maravilhas de harmonização, e leva airosamente até "Hamburg Song" uma música apenas para voz e teclados que soa quase como um exercício a solo, fica mesmo a ideia que Tom Chaplin a poderia cantar sozinho sem qualquer acompanhamento. Em "Put It Behind You" volta a sentir-se o álbum mais próximo da dinâmica rock e encerra-se aqui um capítulo. A candura de "Crystal Ball" transmite um enfâse extraordinário e marca uma transposição no álbum, acentuada pelo efeito dramático de uma intro de quase 3 minutos, feita em contagem decrescente, para a idade da inocência deste registo. A calma e ponderação de "Try Again" interpõe-se para dar depois lugar à curiosa aproximação da sonoridade dos Radiohead em "Broken Toy" e é de forma mágica, no reino da fantasia, que o álbum encerra com "The Frog Prince".

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

The Grand Wazoo - FRANK ZAPPA/THE MOTHERS

 

1 The Grand Wazoo   13:19
2 For Calvin (And His Next Two Hitch-Hikers)   6:06
3 Cletus Awreetus-Awrightus   2:57
4 Eat That Question   6:42
5 Blessed Relief   7:59

1972 foi o ano em que Frank Zappa cumpriu um período de convalescença em casa como consequência de uma queda de palco que lhe valeu uma perna partida. Neste mesmo ano a formação que Zappa manteve como Mothers separou-se mas houve ainda oportunidade para a edição de dois trabalhos em tudo similares mas com diferentes atributos. Waka/Jawaka foi editado em Julho, apenas em nome próprio, enquanto que este Grand Wazoo saiu em dezembro desse mesmo ano e foi creditado aos Mothers. Ambos os trabalhos foram praticamente gravados pela mesma formação onde se incluem alguns membros dos Mothers. Grand Wazoo começa por recuperar a personagem lunática Uncle Meat, cujas experiências alucinantes servem de mote à estrutura composicional desta obra manifestamente embrenhada no jazzO formato big band domina a primeira parte do registo cujas composições evidenciam o toque mágico da peculiar e inventiva orquestração de Zappa, imponente em "Grand Wazoo" e de caráter mais experimental em "For Calvin", tendo depois em "Cleetus Awreetus-Awrightus" uma espécie de bem-humorada transposição da parte um para a parte dois e o mais perto que por aqui se chega do formato de uma "canção". Coube a George Duke as honras de abertura para a segunda parte deste trabalho e a sua enorme presença nas teclas é bem sentida nas próximas composições. A formação é agora mais reduzida, a secção de sopros diminuiu, mas Frank Zappa consegue manter o elevado nível musical das suas peças, com "Eat That Question" a roçar o campo do rock, dentro de uma fusão de géneros ao seu melhor estilo, enquanto "Blessed Relief" é uma espécie de descompressão que encerra o álbum como uma peça comedida, plena de requinte jazz e muito bom gosto. É sabido que Frank Zappa soube sempre tirar o melhor partido dos músicos com que trabalhou e desta formação exemplar salienta-se logo de início a cumplicidade da poderosa secção rítmica composta por Ainsley Dunbar na bateria e "Erroneous" no baixo, que se sabe agora ser o baixista Alex Dmochowski. Como solistas neste registo apresentam-se, Sal Marquez no trompete, Bill Byers e Ken Shroyer nos trombones, Ernie Watts contribui com um pequeno solo de saxofone para "Cleetus Awreetus-Awrightus", Tony Duran na guitarra, nova referência para George Duke e um Frank Zappa exímio com destaque nos seus solos de guitarra.