terça-feira, 31 de dezembro de 2024

The Art Of Tea - MICHAEL FRANKS


1 Nightmoves (M. Franks/M. Small)   4:03
2 Eggplant (M. Franks)   3:34
3 Monkey See - Monkey Do (M. Franks)   3:33
4 St. Elmo's Fire (M. Franks)   3:58
5 I Don't Know Why I'm So Happy I'm Sad (M. Franks)   4:16
6 Jive (M. Franks)   3:16
7 Popsicle Toes (M. Franks)   4:35
8 Sometimes I Just Forget To Smile (M. Franks)   3:45
9 Mr. Blue (M. Franks)   4:03 

Para além de deter um dos timbres vocais mais melosos dentro do jazz vocal mais comercial, Michael Franks revela uma venerável capacidade intelectual para escrever letras interessantes, em que aborda questões de caráter íntimo, imprimindo-lhes uma dimensão musical extrovertida e particularmente inteligente, exprimindo-se de uma forma divertida, sensual e muito própria. No entanto, até que ponto se poderá considerar este registo como jazz?

Para complicar a questão, Michael Franks está aqui acompanhando por uma formação de luxo com reconhecidas bases no ... jazz. A expressiva presença de três elementos dos Crusaders - Joe Sample (piano), Wilton Felder (baixo) e Larry Carlton (guitarra) - ajuda à elevada importância deste registo, a que ainda se junta o baterista John Guerin e as prestações pontuais de David Sanborn (sax-alto) e Michael Brecker (sax-tenor). As composições são todas assinadas por Michael Franks e apresentam a envolvente fragilidade de uma textura doce, macia, serena e extremamente agradável, capaz de cativar um vasto grupo de ouvintes desde o jazz, ao rock e até à pop ou mesmo à soul music

Apesar de uma experiência discográfica anterior, é a partir daqui que a obra de Michael Franks começa a ganhar expressão. Editado originalmente em 1975, 'The Art Of Tea' é realmente uma beleza de álbum, a que é difícil não se dar a devida importância. Registo muito detalhado e inteligente para ser rock, e muito melodioso e correto para ser jazz, caraterizado por uma sobriedade inerente a que não será alheia a postura tímida e erudita de Michael Franks. A excelência dos músicos completa o teor qualitativo do registo da melhor forma, através de uma leitura impecável das composições originais a que ainda se acrescenta o cunho pessoal que compõe a sonoridade de cada um destes músicos.

A perfurante guitarra de Larry Carlton em "Nightmoves", os dotes culinários de "Eggplant", o sax-alto de David Sanborn na delicada relação de "Monkey See - Monkey Do", o calor afetuoso que adorna a irresistível tonalidade de "St. Elmo's Fire", a contradição patente em "I Don't Know Why I'm So Happy I'm Sad", o vigoroso sax-tenor de Michael Brecker em "Jive", a cativante disposição de "Popsicle Toes", a proximidade blues de "Sometimes I Just Forget To Smile", a colorida delicadeza de "Mr. Blue" e, por fim, a presença incrível de Joe Sample em todas as frentes do registo, fazem deste álbum uma obra de referência.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

A Jazzy Way - MARIA ANADON featuring FIVE PLAY


1 Old Devil Moon (E.Y. Harburg/B. Lane)   3:46
2 I Don't Know What Time It Was (L. Hart/R. Rodgers)   4:40
3 Confirmation (S. Jordan/C. Parker)   3:33
4 Comes Love (Sam H. Step/C. Tobias/L. Brown)   4:13
5 My One And Only Love (R. Mellin/G. Wood)   6:17
6 Stolen Moments (M. Murphy/O. Nelson)   4:21
7 Black Coffee (Paul F. Webster/S. Burke)   3:36
8 Devil May Care (T. Kirkley/B. Dorough)   2:51
9 Wouldn't It Be Loverly (Alan J. Lerner/F. Loewe)   3:50
10 You Don't Know What Love Is (D. Raye/Gene de Paul)   4:53
11 I'm Old Fashioned (J. Mercer/J. Kern)   2:57
12 Tenderly (J. Lawrence/W. Gross)   5:10
13 The Best Is Yet To Come (C. Leigh/Cy Coleman)   4:04
14 One Note Samba (J. Hendricks/António C. Jobim/N. Mendonça)   1:29

A baterista norte-americana Sherrie Maricle lidera a orquestra de jazz Diva, totalmente composta por elementos femininos, a partir da qual criou o quinteto Five Play, em 1999, em que a formação tem por base a secção rítmica da orquestra - Sherrie Maricle, na bateria, Noriko Ueda, no contrabaixo, e Tomoko Ohno, no piano - a que se juntam depois dois solistas - Jami Dauber, no trompete, e Janelle Reichman, no sax-tenor e no clarinete. Para este registo de 2006, intitulado 'A JazzyWay', o quinteto reformulou-se numa nova versão, denominada Five Play's Women of the World, em que os dois solistas foram "substituídos" pela Israelita Anat Cohen, em sax-tenor e clarinete, e pela cantora Portuguesa Maria Anadon.

O início do percurso discográfico de Maria Anadon pelos meandros do jazz português deu-se em 1995 com a edição do álbum 'Why Jazz?', gravado em Paço D'Arcos com suporte do quarteto feminino norte-americano Unpredictable Nature, que consistia na primeira pequena formação saída da estrutura da Diva Jazz Orchestra, onde já pontuava a baterista Sherrie Maricle. Onze anos depois, Anadon e Maricle reencontraram-se para a gravação de um novo álbum mas desta vez em terras norte-americanas, com passagem obrigatória por Nova Iorque, onde o caminho do jazz se fez sob a essência das lendas e onde Maria Anadon se sentiu dentro do sonho.

Obra de gabarito - muito deliciosa, segura, tranquila e persuasiva - em que Maria Anadon e as Five Play demonstram ter swing e jazz, muito jazz, para agarrar um repertório estritamente dominado por música norte-americana, e um ligeiro piscar de olho, mesmo para terminar, à música de expressão portuguesa com uma passagem rápida pela obra de António Carlos Jobim para Maria Anadon dar um ar da sua graça na sua língua materna. 

O registo desenvolve-se entre a decente interpretação de Maria Anadon e as notáveis intervenções de Anat Cohen, com o distinto apoio de uma atenta e desembaraçada secção rítmica que se move na firmeza de uma execução experiente e muito segura, garantido assim a autenticidade deste trabalho. O resultado final conclui-se como uma obra exemplar e dignificante que fica registada como o terceiro trabalho a solo de Maria Anadon.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Alibi - MANUELA MOURA GUEDES


1 Violetango (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:09
2 A Hora Do Lobo (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:47
3 Equinócio De Outono (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   4:53
4 Cocktail Party (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:50
5 Prova Oral (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   1:24
6 Um Óscar (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   4:11
7 Fortuna É ... (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:21
8 Procuro Um Alibi (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   4:57
9 O Homem Bala (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:03
10 Cruela (R. Reininho/Tóli C. Machado/V. Rua)   3:19
   TEMAS EXTRA
11 Flor Sonhada (Miguel E. Cardoso/R. Camacho)   4:18
12 Foram Cardos Foram Prosas (Miguel E. Cardoso/R. Camacho)   3:51

O enorme sucesso do single "Flor Sonhada" em finais de 1981, cujo lado B apresenta uma música marcante como "Foram Cardos Foram Prosas", fez de Manuela Moura Guedes a artista do ano em Portugal numa época em que a nova música Portuguesa procurava a direção certa para se expressar. Como consequência do êxito deste single, Manuela Moura Guedes viu-se envolvida na gravação de um álbum que seria composto, produzido e gravado por três elementos dos GNR - Vítor Rua, Tóli César Machado e Rui Reininho.
 
A já conhecida radialista e apresentadora de televisão, não tinha pretensões em ser uma artista pop mas até tinha jeito para cantar. Manuela Moura Guedes gravou três singles entre 1979 e 1981 mas seria realmente o single de 1981 a despoletar a atenção geral da nação para os seus dotes artísticos. A gravação deste single partiu de um incentivo por parte de dois amigos pessoais, Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Camacho, que foram também os nobres autores das músicas "Flor Sonhada" e "Foram Cardos Foram Prosas". Para a gravação em estúdio colaboraram; Ricardo Camacho, que assumiu também o trabalho de produção e gravou os teclados, Tó Pinheiro da Silva, guitarra, Vítor Rua, baixo e guitarra, e Tóli, na bateria. 

O álbum 'Alibi' surge como uma reação natural ao sucesso do single para aproveitar o momento e os GNR surgem como uma das bandas em foco na altura. Integrados na mesma editora, Vítor Rua, Tóli e Rui Reininho foram então abordados para compor, tocar e produzir aquele que seria o único trabalho de longa duração para Manuela Moura Guedes. 

Em certa medida, 'Alibi' pode ser visto como uma obra à parte na carreira dos GNR, apesar da participação se cingir a apenas três dos seus elementos. O álbum foi primeiro gravado por estes três músicos, Manuela Moura Guedes acrescentou depois a voz sobre o material previamente registado. O resultado revela um trabalho interessante dentro dos cânones evolutivos da música moderna Portuguesa através de uma estética pop, plástica e ousada, a que o País não estava ainda habituado. Tamanho arrojo, ou até mesmo alguma incompreensão, provocou o desprezo pelo registo ao ponto de que algumas rádios nem se atreviam a passá-lo, em parte muito devido à fantástica e delirante lírica de Rui Reininho.

É assim inevitável não identificar o traço da banda Portuense ao longo de todo o registo mas torna-se mais evidente em momentos como, "Violetango", "Hora Do Lobo", "Cocktail Party", "Um Óscar" e "Procuro Um Alibi". A sensibilidade lírica dos GNR ganha algum ênfase em "Equinócio De Outono" e "Fortuna É ..." e a música dos Talking Heads é uma clara influência para os GNR deste período e encontra-se descaradamente pronunciada em "Cocktail Party". O álbum encerra com a estranheza pop western de "O Homem Bala" e com uma parábola rítmica muito ao jeito dos ... Heróis do Mar.  

A edição aqui apresentada refere-se à reedição em formato CD pela Som Livre, Som e Imagem Lda., com licença exclusiva da Valentim de Carvalho. A reedição insere-se na coleção 'Do Tempo Do Vinil', que se propunha a relançar o catálogo da editora com obras que nunca conheceram edição em CD. Para além do álbum 'Alibi', esta edição inclui como extra o já destacado single de 1981 - "Flor Sonhada"/"Foram Cardos Foram Prosas".