terça-feira, 30 de junho de 2026

My Way - FRANK SINATRA


1 Watch What Happens (Legrand/Gimbel/Demy)   2:19
2 Didn't We (J. Webb)   2:56
3 Hallelujah, I Love Her So (R. Charles)   2:47
4 Yesterday (Lennon/McCartney)   3:56
5 All My Tomorrows (J. Van Heusen/S. Cahn)   4:38
6 My Way (Anka/Thibaut/François/Revaud)   4:36
7 A Day In The Life Of A Fool (L. Bonfa/C. Sigman)   3:04
8 For Once In My Life (O. Murden/R. Miller)   2:50
9 If You Go Away (J. Brel/R. McKuen)   3:33
10 Mrs. Robinson (P. Simon)   2:55
   Bonus Tracks
11 For Once In My Life (Rehearsal) (O. Murden/R. Miller)   4:08
12 My Way (Live) (Anka/Thibaut/François/Revaud)   3:12

Sempre que Sinatra começa a cantar, seja qual for a obra ou a época, dissipam-se imediatamente todas as dúvidas, se as há, quanto à conservação dos seus atributos vocais. 'A Voz', como Sinatra foi apelidado logo nos primeiros anos de carreira, soa sempre deslumbrante, na plenitude da sua arte e maturidade vocal, com uma entoação macia e agradavelmente melosa. O swing, tão natural e muito bem aplicado, faz o resto do trabalho, imprimindo às músicas o balanço necessário para prender a atenção no intérprete que, de certa forma, fez sempre tudo à sua maneira. 

Este registo corresponde a uma reedição em formato CD, em 2009, comemorativa dos 40 anos da edição original, em 1969. Os arranjos e a direção de orquestra estão a cargo de Don Costa que, a par de Sonny Burke, assume também o trabalho de produção. Gravado no final de uma década que passou, naturalmente, por fortes mudanças culturais, políticas e sociais - um mundo já muito diferente daquele que assistiu ao aparecimento e à evolução artística de Sinatra - era fundamental a apresentação de um repertório que encaixasse no contexto de época; relativamente recente e adaptado ao estilo de Sinatra.

A música mais 'antiga' deste alinhamento é "All My Tomorrows", que Sinatra já tinha gravado em 1958, sob a direção de Nelson Riddle. Apesar do novo arranjo, é realmente a música que apresenta o teor mais clássico, em modo balada, associado ao estilo de Sinatra. Há ainda espaço para uma interpretação da jubilante "Hallelujah I Love Her So", que Ray Charles gravou originalmente em 1955, e uma delicada adaptação de "Manhã De Carnaval", interpretada por Agostinho dos Santos no filme "Orfeu Negro" em 1958, que na versão anglo-saxónica passou a ser "A Day In The Life Of A Fool".

A inclusão de sangue novo foi feita com: a vivacidade jazz de "For Once In My Life", gravada originalmente em 1966 por Jean DuShon; a emocionante ternura de "Didn't We", escrita por um jovem Jimmy Webb e gravada originalmente por James Darren em 1967; a incontornável relevância dos The Beatles através de um bonito arranjo para "Yesterday"; e a frescura de um hit 'recente', em 1968, como "Mrs. Robinson" de Paul Simon. A escolha de repertório novo revela ainda uma interessante pesquisa pela música francesa, com a particular inclusão de três composições; a triste balada "If You Go Away" corresponde a uma adaptação de "Ne Me Quitte Pas", escrita e gravada por Jacques Brél em 1959; o desenvolto swing de "Watch What Happens" é uma adaptação de "Récit de Cassard", original de Michel Legrand que as Royalettes gravaram em 1965 já com o título adaptado; e "My Way" ... que necessita de um parágrafo à parte.

"My Way" é uma adaptação de "Comme d'habitude", escrita por Claude François e Jacques Revaux em 1967. Paul Anka gozava férias em França quando ouviu a música na radio, interpretada por François, com a letra original de Gilles Thibault, e ficou tão impressionado que adquiriu os direitos para adaptação e publicação desta música, ainda antes de sair do país. Algum tempo depois, Sinatra abordou Anka com um pedido para uma música nova. Anka não hesitou e adaptou "Comme d'habitude" com uma letra elaborada como se fosse o próprio Sinatra a escrever. Assim surgiu "My Way" que, para além de dar título ao álbum, recebe todo o protagonismo deste trabalho por se ter tornado numa das músicas mais significativas da carreira de Frank Sinatra. Não se revelou como um êxito imediato mas, à medida que as audiências reconheceram o caráter biográfico da música, e até se identificavam com o seu teor lírico, a música alcançou uma dimensão imensurável.  

A edição contém ainda a adição de duas faixas extra que levam o ouvinte um pouco mais além do registo habitual. "For Once In My Life" reaparece como extra através da gravação de um ensaio em que se percebe a boa disposição e o à vontade com que Sinatra enfrentava as sessões de gravação. A outra faixa extra corresponde a uma versão gravada ao vivo de "My Way", captada na Reunion Arena, Dallas, TX, a 24 Outubro de 1987, e evidencia como esta música se tornou num dos pontos altos das atuações de Sinatra.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Naked Child - LEE CLAYTON


 Lado A
1 Saturday Night Special (L. Clayton)   3:11
2 I Ride Alone (L. Clayton)   5:14
3 10.000 Years/Sexual Moon (L. Clayton)   6:23
4 Wind And Rain (L. Clayton)   2:40
 Lado B
1 I Love You (L. Clayton)   5:06
2 Jaded Virgin (L. Clayton)   4:14
3 A Little Cocaine (L. Clayton)   5:26
4 If I Can Do It (So Can You)   4:44

Lee Clayton foi, provavelmente, o mais solitário e inconformado dos cowboys renegados da música country. Um homem simples, sem grandes pretensões musicais que não fosse contar as suas histórias através de canções honestas e sinceras, que um dia decidiu abandonar a monotonia do seu cotidiano para percorrer livremente o seu próprio caminho. Em 1978 Lee Clayton 'cedeu' perante o interesse da Capitol e gravou uma trilogia, não premeditada, composta pelos álbuns 'Border Affair' (1978), 'Naked Child' (1979) e 'The Dream Goes On' (1981). Esta foi a fase mais produtiva da carreira de Lee Clayton. Pouco mais se passou depois de 1981, havendo apenas registo de um discreto regresso a estúdio em 1994.

'Naked Child' é uma obra digna de atenção. Está envolta por uma aura especial, uma espécie de conjunção mística, que prende imediatamente através da categórica firmeza e estilo de um country-rock coerente e sem artifícios, manifestamente elétrico no Lado A da edição em vinil. O registo está igualmente imbuído de um espírito intimista, perceptível pela manifesta carga auto-biográfica, que se revela naturalmente na simplicidade de canções racionais e persuasivas, composto por uma vertente mais acústica e afetiva no Lado B.

Duas músicas destacam-se, prontamente, como os dois pilares que sustentam o alinhamento do registo; "I Ride Alone" e "10,000 Years/Sexual Moon". São ambas compostas por uma estrutura musical semelhante, que varia entre o servil apoio da guitarra acústica e o manifesto efervescer da guitarra elétrica de ... Philip Donnely, que preenche estas músicas com uma intensidade incrível, melodiosa e tão expressiva. Como a edição não apresenta nenhuma descrição com a atribuição dos créditos aos músicos que participaram nas sessões de gravação, o nome de Philip Donnely é uma suposição sustentada na sua habitual colaboração com Lee Clayton nos restantes álbuns.

A associação dos músicos a este álbum tem sido delineada a partir da listagem de agradecimentos, onde surgem os nomes dos seguintes músicos: Byron Bach e Lawrence Lasson, violinistas, J.J. Cale, Chip Young e Philip Donnely, guitarristas, Andy McMahon, teclista, Tony Newman, baterista e Klaus Voorman, baixista. Para além de tocar guitarra e harmónica, Lee Clayton não é um cantor exímio e a "falta" desta faculdade não o impede de se exprimir na sua própria voz, tornando-se esta, ao invés, numa das suas principais características. A pontual utilização de um coro de vozes femininas ajuda a preencher as harmonias vocais revelando-se fundamental na estabilidade da bonita balada "I Love You" e uma presença agradável nas restantes músicas. 

esclarecedor e destemido country-rock de "Saturday Night Special" arranca decidido para a notável sucessão das já referidas "I Ride Alone" e "10,000 Years/Sexual Moon", concluindo-se o Lado A com a ligeira contenção do ritmo linear de "Wind And Rain". O conteúdo lírico de lado B revela-se ainda mais explicito e intimista através de pequenas histórias conjugais onde se percebe a bonita relevância de "I Love You", a inspiração espanhola para "Jaded Virgin" e a doce afeição acústica do drama do vício exposto em "Little Cocaíne", concluindo-se o registo com o estímulo liberalismo de "If I Can Do It (So You Can)".