terça-feira, 30 de junho de 2026

My Way - FRANK SINATRA


1 Watch What Happens (Legrand/Gimbel/Demy)   2:19
2 Didn't We (J. Webb)   2:56
3 Hallelujah, I Love Her So (R. Charles)   2:47
4 Yesterday (Lennon/McCartney)   3:56
5 All My Tomorrows (J. Van Heusen/S. Cahn)   4:38
6 My Way (Anka/Thibaut/François/Revaud)   4:36
7 A Day In The Life Of A Fool (L. Bonfa/C. Sigman)   3:04
8 For Once In My Life (O. Murden/R. Miller)   2:50
9 If You Go Away (J. Brel/R. McKuen)   3:33
10 Mrs. Robinson (P. Simon)   2:55
   Bonus Tracks
11 For Once In My Life (Rehearsal) (O. Murden/R. Miller)   4:08
12 My Way (Live) (Anka/Thibaut/François/Revaud)   3:12

Sempre que Sinatra começa a cantar, seja qual for a obra ou a época, dissipam-se imediatamente todas as dúvidas, se as há, quanto à conservação dos seus atributos vocais. 'A Voz', como Sinatra foi apelidado logo nos primeiros anos de carreira, soa sempre deslumbrante, na plenitude da sua arte e maturidade vocal, com uma entoação macia e agradavelmente melosa. O swing, tão natural e muito bem aplicado, faz o resto do trabalho, imprimindo às músicas o balanço necessário para prender a atenção no intérprete que, de certa forma, fez sempre tudo à sua maneira. 

Este registo corresponde a uma reedição em formato CD, em 2009, comemorativa dos 40 anos da edição original, em 1969. Os arranjos e a direção de orquestra estão a cargo de Don Costa que, a par de Sonny Burke, assume também o trabalho de produção. Gravado no final de uma década que passou, naturalmente, por fortes mudanças culturais, políticas e sociais - um mundo já muito diferente daquele que assistiu ao aparecimento e à evolução artística de Sinatra - era fundamental a apresentação de um repertório que encaixasse no contexto de época; relativamente recente e adaptado ao estilo de Sinatra.

A música mais 'antiga' deste alinhamento é "All My Tomorrows", que Sinatra já tinha gravado em 1958, sob a direção de Nelson Riddle. Apesar do novo arranjo, é realmente a música que apresenta o teor mais clássico, em modo balada, associado ao estilo de Sinatra. Há ainda espaço para uma interpretação da jubilante "Hallelujah I Love Her So", que Ray Charles gravou originalmente em 1955, e uma delicada adaptação de "Manhã De Carnaval", interpretada por Agostinho dos Santos no filme "Orfeu Negro" em 1958, que na versão anglo-saxónica passou a ser "A Day In The Life Of A Fool".

A inclusão de sangue novo foi feita com: a vivacidade jazz de "For Once In My Life", gravada originalmente em 1966 por Jean DuShon; a emocionante ternura de "Didn't We", escrita por um jovem Jimmy Webb e gravada originalmente por James Darren em 1967; a incontornável relevância dos The Beatles através de um bonito arranjo para "Yesterday"; e a frescura de um hit 'recente', em 1968, como "Mrs. Robinson" de Paul Simon. A escolha de repertório novo revela ainda uma interessante pesquisa pela música francesa, com a particular inclusão de três composições; a triste balada "If You Go Away" corresponde a uma adaptação de "Ne Me Quitte Pas", escrita e gravada por Jacques Brél em 1959; o desenvolto swing de "Watch What Happens" é uma adaptação de "Récit de Cassard", original de Michel Legrand que as Royalettes gravaram em 1965 já com o título adaptado; e "My Way" ... que necessita de um parágrafo à parte.

"My Way" é uma adaptação de "Comme d'habitude", escrita por Claude François e Jacques Revaux em 1967. Paul Anka gozava férias em França quando ouviu a música na radio, interpretada por François, com a letra original de Gilles Thibault, e ficou tão impressionado que adquiriu os direitos para adaptação e publicação desta música, ainda antes de sair do país. Algum tempo depois, Sinatra abordou Anka com um pedido para uma música nova. Anka não hesitou e adaptou "Comme d'habitude" com uma letra elaborada como se fosse o próprio Sinatra a escrever. Assim surgiu "My Way" que, para além de dar título ao álbum, recebe todo o protagonismo deste trabalho por se ter tornado numa das músicas mais significativas da carreira de Frank Sinatra. Não se revelou como um êxito imediato mas, à medida que as audiências reconheceram o caráter biográfico da música, e até se identificavam com o seu teor lírico, a música alcançou uma dimensão imensurável.  

A edição contém ainda a adição de duas faixas extra que levam o ouvinte um pouco mais além do registo habitual. "For Once In My Life" reaparece como extra através da gravação de um ensaio em que se percebe a boa disposição e o à vontade com que Sinatra enfrentava as sessões de gravação. A outra faixa extra corresponde a uma versão gravada ao vivo de "My Way", captada na Reunion Arena, Dallas, TX, a 24 Outubro de 1987, e evidencia como esta música se tornou num dos pontos altos das atuações de Sinatra.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Naked Child - LEE CLAYTON


 Lado A
1 Saturday Night Special (L. Clayton)   3:11
2 I Ride Alone (L. Clayton)   5:14
3 10.000 Years/Sexual Moon (L. Clayton)   6:23
4 Wind And Rain (L. Clayton)   2:40
 Lado B
1 I Love You (L. Clayton)   5:06
2 Jaded Virgin (L. Clayton)   4:14
3 A Little Cocaine (L. Clayton)   5:26
4 If I Can Do It (So Can You)   4:44

Lee Clayton foi, provavelmente, o mais solitário e inconformado dos cowboys renegados da música country. Um homem simples, sem grandes pretensões musicais que não fosse contar as suas histórias através de canções honestas e sinceras, que um dia decidiu abandonar a monotonia do seu cotidiano para percorrer livremente o seu próprio caminho. Em 1978 Lee Clayton 'cedeu' perante o interesse da Capitol e gravou uma trilogia, não premeditada, composta pelos álbuns 'Border Affair' (1978), 'Naked Child' (1979) e 'The Dream Goes On' (1981). Esta foi a fase mais produtiva da carreira de Lee Clayton. Pouco mais se passou depois de 1981, havendo apenas registo de um discreto regresso a estúdio em 1994.

'Naked Child' é uma obra digna de atenção. Está envolta por uma aura especial, uma espécie de conjunção mística, que prende imediatamente através da categórica firmeza e estilo de um country-rock coerente e sem artifícios, manifestamente elétrico no Lado A da edição em vinil. O registo está igualmente imbuído de um espírito intimista, perceptível pela manifesta carga auto-biográfica, que se revela naturalmente na simplicidade de canções racionais e persuasivas, composto por uma vertente mais acústica e afetiva no Lado B.

Duas músicas destacam-se, prontamente, como os dois pilares que sustentam o alinhamento do registo; "I Ride Alone" e "10,000 Years/Sexual Moon". São ambas compostas por uma estrutura musical semelhante, que varia entre o servil apoio da guitarra acústica e o manifesto efervescer da guitarra elétrica de ... Philip Donnely, que preenche estas músicas com uma intensidade incrível, melodiosa e tão expressiva. Como a edição não apresenta nenhuma descrição com a atribuição dos créditos aos músicos que participaram nas sessões de gravação, o nome de Philip Donnely é uma suposição sustentada na sua habitual colaboração com Lee Clayton nos restantes álbuns.

A associação dos músicos a este álbum tem sido delineada a partir da listagem de agradecimentos, onde surgem os nomes dos seguintes músicos: Byron Bach e Lawrence Lasson, violinistas, J.J. Cale, Chip Young e Philip Donnely, guitarristas, Andy McMahon, teclista, Tony Newman, baterista e Klaus Voorman, baixista. Para além de tocar guitarra e harmónica, Lee Clayton não é um cantor exímio e a "falta" desta faculdade não o impede de se exprimir na sua própria voz, tornando-se esta, ao invés, numa das suas principais características. A pontual utilização de um coro de vozes femininas ajuda a preencher as harmonias vocais revelando-se fundamental na estabilidade da bonita balada "I Love You" e uma presença agradável nas restantes músicas. 

esclarecedor e destemido country-rock de "Saturday Night Special" arranca decidido para a notável sucessão das já referidas "I Ride Alone" e "10,000 Years/Sexual Moon", concluindo-se o Lado A com a ligeira contenção do ritmo linear de "Wind And Rain". O conteúdo lírico de lado B revela-se ainda mais explicito e intimista através de pequenas histórias conjugais onde se percebe a bonita relevância de "I Love You", a inspiração espanhola para "Jaded Virgin" e a doce afeição acústica do drama do vício exposto em "Little Cocaíne", concluindo-se o registo com o estímulo liberalismo de "If I Can Do It (So You Can)".

sábado, 30 de maio de 2026

Absolute Begineers - ORIGINAL SOUNDTRACK


1 Absolute Beginners (D. Bowie) - David Bowie   8:00
2 Killer Blow (Adu/Booth/Stabbins) - Sade   4:35
3 Have You Ever Had It Blue? (P. Weller) - Style Council   5:36
4 Quiet Life (R. Davies) - Ray Davies   2:55
5 Va Va Boom (G. Evans) - Gil Evans   3:25
6 That's Motivation (D. Bowie) - David Bowie   4:13
7 Having It All (P. Kensit/Godson/Beauchamp) - Eighth Wonder feat. Patsy Kensit   3:06
8 Rodrigo Bay (Booth/Stabbins) - Working Week   3:28
9 Selling Out (Taylor/Temple/Gaillard) - Slim Gaillard   3:34
10 Riot City (J. Dammers) - Jerry Dammers   8:28
11 Boogie Stop Shuffle (Rough and the Smooth) (Mingus) - Gil Evans   3:00
12 Ted Ain't Ded (Tudorpole/Temple) - Tenpole Tudor   2:35
13 Volare (Nel Blu Dipinto Di Blu) (Modungo/Migliacci) - David Bowie   3:12
14 Napoli (Langer/Temple) - Clive Langer   4:07
15 Little Cat (You've Never Had It So Good) (N. Lowe) - Jonas   2:17
16 Better Git It In Your Soul (The Hot and the Cool) (Mingus) - Gil Evans   1:48
17 So What? (Lyric Version) (M. Davis/S. Culture) - Smiley Culture   4:16
18 Absolute Beginners (Refrain) (D. Bowie) - Gil Evans   1:37

A reputação do realizador britânico Julien Temple foi conquistada pelo seu trabalho na área do videoclip, onde pontuam trabalhos para nomes como Sex Pistols, David Bowie, Rolling Stones, Neil Young, Tom Petty, entre outros mais. Em 1986 Julien Temple dirigiu uma adaptação cinematográfica  do livro 'Absolute Begineers', escrito por Colin MacInnes em 1959, utilizando o formato de uma obra musical, ao estilo de Hollywood, para transpor a época tumultuosa de uma Londres em completa ebulição para o grande ecrã. O conceito faz todo o sentido, tendo em conta que a música estava no centro de toda esta agitação. 

A época (final da década de 1950), ficou marcada por um período de forte imigração para as ilhas britânicas, o que gerou uma grande tensão racial e alguma instabilidade social. Esta foi também a época da cultura mod, dominada pela afirmação do requinte da moda e pela aceitação da cultura Italiana e as suas motas scooters. Uma explosiva fusão cultural/social, carregada com o exotismo de novos estilos musicais, que foi imediatamente assimilada pelas novas gerações que assim procuravam afirmar a sua individualidade e sofisticação perante a austeridade do pós-guerra.

O jazz, a música latina, o rock e algum esplendor soul, prevalecem acima dos tumultos e do romance e estabelecem a sua posição no filme. É o momento em que a 'música negra' entra definitivamente no panorama cultural britânico. O filme captura toda a ambiência da época e a banda sonora tem o papel evidente de ilustrar as imagens com a devida correspondência musical, havendo mesmo lugar à participação de alguns destes músicos no filme - Sade, Ray Davies, David Bowie, Patsy Kensit, Slim Gaillard e Tenpole Tudor têm todos o seu papel, na interpretação das suas músicas. 

As músicas são todas originais para o filme, exceção apenas para a versão que David Bowie gravou do clássico italiano "Volare" e uma adaptação hip-hop de Smiley Culture para "So What", que Miles Davis gravou precisamente na época em que se desenrola a ação do filme. Gil Evans, lendário maestro, compositor e pianista canadiano, teve um desempenho relevante com a sua contribuição para a música do filme, ao nível de produção e de arranjos, ajudando a condensar a sonoridade jazz clássica com a modernidade pop da época de produção do filme. O original "Va Va Boom" e a inclusão de dois apontamentos musicais centrados em peças de Charles Mingus - "Boogie Stop Shuffle" e Better Git It In Your Soul" - sobressaem como os momentos mais jazzísticos desta edição. A par da contribuição de Gil Evans, David Bowie é o nome que maior contributo deu para esta banda sonora, conseguindo mesmo alcançar um dos seus maiores êxitos da década de 1980 com o single homónimo.

Há mais, muito mais, para descobrir no restante alinhamento. O elegante caráter latino de "Rodrigo Bay", dos britânicos Working Week, é deliciosamente dançável. "Napoli", de Clive Langer, tem também algum aroma latino, mas mais expansivo. Jerry Dammers orquestrou "Riot City" com variações dinâmicas prontas a servir a intensidade da cena em questão. A adaptação de Smiley Culture para "So What?" revela um trabalho inteligente e de boa disposição, que elucida o ouvinte acerca dos acontecimentos que marcam o período que o filme representa.

É um registo dignificante, que recorre a músicos atuais, à época, para criar uma obra fiável e bem entrosada, capaz de representar eficazmente um período de tempo específico e datado. A escolha das participações foi bem conseguida, ao ponto da banda sonora ser mais popular do que o próprio filme.  

sábado, 9 de maio de 2026

The Art Of Control - PETER FRAMPTON


 Lado A
1 I Read The News (P. Frampton/M. Goldenberg)   4:02
2 Sleepwalk (P. Frampton/M. Goldenberg)   4:36
3 Save Me (P. Frampton/M. Goldenberg)   3;48
4 Back To Eden (P. Frampton/M. Goldenberg)   4:45
 Lado B
1 An Eye For An Eye (P. Frampton/M. Goldenberg)   3:50
2 Don't Think About Me (P. Frampton/M. Goldenberg)   3:43
3 Heart In The Fire (P. Frampton/M. Goldenberg)   4:28
4 Here Comes Caroline (P. Frampton/M. Goldenberg)   3:41
5 Barbara's Vacation (P. Frampton/M. Goldenberg)   3:15

O estrondoso sucesso obtido com a edição de "Comes Alive", duplo álbum, gravado ao vivo, em 1975, catapultou o nome de Peter Frampton para as mais altas instâncias do rock. À data, o álbum bateu o record de vendas, permanecendo ainda hoje como um dos discos ao vivo mais vendidos de sempre, e parecia abrir, de vez, as portas para a afirmação da carreira a solo do notável guitarrista britânico. No entanto, sucedeu o oposto.

A década de 1980 foi difícil de suportar para muitos dos artistas que se tornaram ícones rock no período áureo do estilo, a década de 1970 - um período marcado por excessos que custaram depois a recuperar. Peter Frampton, em particular, foi um dos que mais sofreu com a transição. Uma má gestão de carreira, associada a alguns azares profissionais e outros pessoais, poderá ser a causa para que Frampton tenha passado praticamente ao lado de uma década que viu a música evoluir nos mais diversos campos, nomeadamente em termos de estética e de tecnologia.    

Editado em 1982, "The Art Of Control" corresponde ao oitavo álbum de estúdio de Peter Frampton e encerrou o ciclo da sua relação com a editora A&M. Rezam as histórias que Frampton detesta o álbum porque os compromissos contratuais terão forçado a produção de uma obra mais comercial. Os intuitos comerciais não foram alcançados mas o álbum conclui-se como um bom registo discográfico que corresponde exatamente aquilo que só podia ter sido feito por aquela altura. 

Preconceitos à parte, o registo soa, de forma tão natural, como um álbum de ... Peter Frampton. As músicas podem não ter o brilho e a dinâmica rock'n roll de outros tempos mas revelam a vivacidade e autenticidade de uma banda rock que procura sobreviver numa nova época, mantendo-se fiel ao formato clássico com duas guitarras elétricas, baixo e bateria. É um trabalho ritmicamente poderoso, a possante bateria de Harry Stinson é um dos pontos marcantes do álbum, enquanto Peter Frampton divide os créditos de composição com o multi-instrumentista Mark Goldenberg através de músicas eficazes e estimulantes, que Frampton depois conclui com a incontornável elegância dos seus solos de guitarra. 

O álbum pode não soar suficientemente moderno para a época mas não é de forma nenhuma uma obra dececionante. Músicas como "Sleepwalk" e "Hearts In The Fire" aproximam-se de alguma contemporaneidade mas não se excedem na tentativa em criar música rock acessível, cumprindo os padrões qualitativos do bom gosto, a que se junta ainda a cativante "Back To Eden", detentora daquela aura que habitualmente "protege" as músicas destinadas a grandes vôos. "I Read The News", "Eye For An Eye", "Don't Think About Me" e "Here Comes Caroline" mantêm-se firmes na solidez da sua estrutura, enquanto "Save Me" ressalta como a composição com a vertente mais comercial do registo e contém mesmo um dos solos de guitarra mais relevantes do registo. "Barbara's Vacation" procura encerrar o registo com alguma exuberância regggae

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Greatest Hits - DONOVAN

 

Lado A
1 Epistle To Dippy (D. Leitch)   3:10
2 Sunshine Superman (Donovan)   4:30
3 There Is A Mountain (D. Leitch)   2:38
4 Jennifer Juniper (D. Leitch)   2:40
5 Wear Your Love Like Heaven (D. Leitch)   2:24
6 Season Of The Witch (D. Leitch)   4:46
 Lado B
1 Mellow Yellow (D. Leitch)   3:42
2 Colours (Donovan)   4:20
3 Hurdy Gurdy Man (D. Leitch)   3:18
4 Catch The Wind (Donovan)   5:04
5 Lalena (D. Leitch)   2:52

Figura proeminente do panorama musical britânico no decorrer da segunda metade da década de 1960, o escocês Donovan Leitch surge em 1965, imerso numa fase folk, com a euforia do êxito "Catch The Wind" e uma imediata conotação mediática que o apontou como "a resposta britânica a Bob Dylan". Mas cedo se percebeu que apesar de algumas semelhanças de estilo cada um dos músicos seguia o seu próprio caminho e criava o seu próprio estilo.

Esta compilação data de 1969 e revisita os primeiros anos da carreira de Donovan no decorrer daquele que se pode considerar o seu período mais criativo, entre os anos de 1965 e 1968. Época também de referência para a música britânica que engloba uma importante revolução cultural, que definiu, praticamente, o mundo social e artístico das décadas seguintes. Donovan estava no centro desse furacão em ebulição e é-lhe mesmo atribuído o despoletar da revolução psicadélica com a música "Sunshine Superman", em 1966. O notável álbum 'Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band', dos The Beatles, apenas seria editado no ano seguinte.

E a saudável relação de Donovan com os The Beatles desenvolveu-se, de forma natural, no decorrer desses anos. Donovan integrou a comitiva que acompanhou os The Beatles na sua viagem a Rishikesh, Índia, para estudar meditação transcendental. Conta a história que o famoso 'White Album' nasceu nestas paragens sob a tutela de Donovan, que ensinou a Paul, John e George, novas técnicas de tocar guitarra e que foram notoriamente aplicadas nesse duplo álbum. (Uns bons anos depois, George Harrison referiu mesmo, numa entrevista, que "Donovan está em todo o 'White Album' ').

Donovan evoluiu de forma empolgante e criativa desde o folk inicial de "Catch The Wind" e "Colours", em 1965, até à completa afirmação da sua fase psicadélica, que tem início logo em 1966 e se prolongou até ao final dessa década. Através de uma criteriosa seleção de êxitos, o registo expõe o relevante manancial que compõe a combinação de elementos folk, rock, jazz, étnicos, espirituais e psicadélicos que povoa as composições de Donovan e que acaba por definir vasta parte da sonoridade que também carateriza a música britânica da década de 1960. 

Mesmo sem conhecer um envolvimento muito extremista dentro do género, Donovan criava canções ricas em harmonia que eram depois adocicadas por inebriantes texturas exóticas como "Season Of The Witch" ou "Wear Your Love Like Heaven", encerrando depois o ciclo com o aperfeiçoamento de "Mellow Yellow" e a intrépida abordagem de "Hurdy Gurdy Man". A compilação inclui ainda três músicas que apenas foram editadas em formato de single"Epistle To Dippy" de 1967, apenas editado fora do Reino Unido, a espiritual "There Is A Mountain", também em 1967, e a bonita balada "Lalena" em 1968.

Curiosidade: é sabido que os jovens músicos de estúdio Jimmy Page e John Paulo Jones, ainda antes dos Led Zeppelin, estiveram envolvidos nas sessões de gravação de "Sunshine Superman" e "Hurdy Gurdy Man", e que Paul McCartney terá dado uma ajuda nas sessões de "Mellow Yellow", em que John Paul Jones esteve novamente envolvido. Há, portanto, imensa história por aqui.

domingo, 12 de abril de 2026

In My Solitude - DUKE ELLINGTON


 Lado A
1 The Sheik Of Araby (Snyder/Wheeler/Smith)   2:58
2 Dancing In The Dark (Dietz/Schwarz)   4:25
3 Solitude (DeLange/Ellington/Mills)   3:09
4 Poor Butterfly (Hubbel/Golden)   3:43
5 Don't Get Around Much Anymore (Russell/Ellington)   3:04
 Lado B
1 Mood Indigo (Ellington/Mills/Bigard)   3:06
2 I Got It Bad And That Ain't Good (Ellington/Webster)   3:47
3 Blue Harlem (Miley)   2:52
4 Autumn Leaves (Prevett/Kosma)   5:04
5 In A Sentimental Mood (Ellington)   3:16  

Compilação editada em vinil, em 1969, focada na importância do nome de Duke Ellington como influente músico de jazz, respeitado e admirado pelo extraordinário trabalho como compositor, orquestrador e arranjador. A edição conclui-se como um registo de teor mais comercial, naquilo que se possa considerar comercial dentro da genial obra de Duke Ellington, preparada para vender no mercado mais acessível, ao ponto de nem incluir créditos nem referências à origem das gravações. Interessante verificar que este álbum apenas foi editado em países onde predomina a língua Inglesa (USA, UK, Austrália e Canadá), com a única exceção da existência de uma edição Alemã.

O registo é composto por dez peças executadas pelas orquestras de Duke Ellington, em diversas fases. Como não há referências às gravações originais, não se consegue precisar a que época pertence cada uma delas. Apenas é possível distinguir a qualidade das gravações e estimar assim a idade da gravação. Com exceção da referência a Ozzie Bailey, como vocalista em "Autumn Leaves", e ao saxofonista Johnny Hodges, apresentado pelo Duke no início de "I God It Bad And That Ain't Good", também não há créditos relativamente aos músicos, pelo que não se sabe muito bem, nomeadamente os solistas, quem participa nas músicas.

Pormenores técnicos à parte, resta a notabilidade da música de Duke Ellington e da sua orquestra, onde predomina a classe, o estilo e a organização, de um extraordinário coletivo de músicos cuja orientação era proporcionar entretenimento e boa disposição, com caráter e disciplina, convidando ao swing e à dança com o seu jazz inteligente, efervescente e contagioso, onde cada solista sobressaía na relevância do seu momento. 

Pela qualidade das gravações, "The Sheik Of Araby", "Solitude", "Mood Indigo", "Blue Harlem" e "In A Sentimental Mood" correspondem às gravações mais antigas que integram esta compilação e exprimem nitidamente a emoção e vivacidade de outra(s) era(s). Do restante repertório, ressalta o charme e o encanto da irresistível interpretação de "Dancing In The Dark", o encanto artístico de "Poor Butterfly" e a profunda comoção que exala da peculiar adaptação de "Autumn Leaves".

domingo, 29 de março de 2026

Video - GABRIELA SCHAFF


 Lado A
1 Minha Cara Amiga (António A. Pinho/N. Rodrigues)   3:35
2 Saco Cheio (F. Guerra)   3:15
3 Noite De Abat-Jour (N. Rodrigues)   4:04
4 Homem Muito Braza (António A. Pinho/N. Rodrigues)   3:10
5 Fotografia (António A. Pinho/N. Rodrigues)   3:30
6 Down In Brazil (M. Franks)   2:00
7 Caminhos Cruzados (António C. Jobim/N. Mendonça)   3:47
 Lado B
1 Bibelô (António A. Pinho/N. Rodrigues)   3:50
2 This Masquerade (L. Russell)   3:30
3 Cigarro (F. Guerra)   2:51
4 Uma Vez Mais (My Sweetest Eyes) (António A. Pinho/B. Spoerri)   2:47
5 O Amor É Mais (António A. Pinho/N. Rodrigues)   4:21
6 Olá, Como Estás? (António A. Pinho/N. Rodrigues)   5:19

Gabriela Schaaf nasceu em Genebra, Suíça, em 1960, e mudou-se para a cidade do Porto, com os pais, em 1971. Através do maestro José Calvário, chegou à Banda do Casaco em 1977 e participou nas gravações do álbum "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos", deixando a marca da sua voz nas músicas "País: Portugal" e "Geringonça". Daqui para a frente, mantém uma breve ligação artística com António Avelar Pinho e Nuno Rodrigues, os dois principais autores da Banda do Casaco, e em 1979 participou no Festival da Canção com uma música da autoria desta dupla de compositores, alcançando o segundo lugar. 

Nesse mesmo ano de 1979 gravou, na Suíça, o seu primeiro registo a solo, denominado 'Video'. António Avelar Pinho e Nuno Rodrigues continuam a ser os autores da maior parte das músicas originais, Fernando Guerra assina também duas músicas, e há ainda espaço para três versões - "Down In Brazil", de Michael Franks, "Caminhos Cruzados", de António Carlos Jobim e Newton Mendonça, e "This Masquerade", de Leon Russell. É interessante perceber como estas três adaptações parecem definir a sonoridade geral do álbum, como uma referência a seguir.

Com exceção da música "Fotografia", gravada com uma formação totalmente composta por músicos Portugueses - Shegundo Galarza ao piano, Zé Nabo no baixo, Ramón Galarza na bateria e Rui Cardoso no saxofone - o álbum foi todo gravado com músicos de estúdio, e de jazz, Suíços e Italianos. 

É uma obra de muito bom gosto mas fica a ideia de que uma produção mais cuidada podia ter  resultado num trabalho mais primoroso. Ainda assim, é um registo consciente e bem conseguido, composto por canções ligeiras de cariz jazz e a maturidade de uma subtileza pop que se deixa envolver na doce fragrância da música brasileira. "Minha Cara Amiga" e os singles "Homem Muito Braza" e "O Amor É Mais", avivam o registo com uma côr entusiástica, sob a agilidade da sua matriz pop, que encontra ainda alguma conexão com a indefinida abordagem tango de "Bibelô" e a imprecisão latina de "Olá, Como Estás?". O acentuado perfume da moderação jazz/bossa nova de "Saco Cheio", "Noite De Abat-Jour", "Cigarro" e "Uma Vez Mais", conclui o registo com nota alta.

domingo, 15 de março de 2026

The Beatles For Trio - ISRAEL COSTA PEREIRA, RICARDO MARTINS, TIAGO MORIN


1 Get Back (Lennon/McCartney)   3:14
2 Blackbird (Lennon/McCartney)   3:39
3 Here, There And Everywhere (Lennon/McCartney)   3:45
4 Penny Lane (Lennon/McCartney)   4:10
5 In My Life (Lennon/McCartney)   4:07
6 Yesterday (Lennon/McCartney)   4:02
7 Julia (Lennon/McCartney)   5:12
8 Eleanor Rigby (Lennon/McCartney)   3:56
9 When I'm 64 (Lennon/McCartney)   3:16

Israel Costa Pereira divide a sua vida profissional entre a atividade de docente, no ensino de guitarra, e como músico de palco dos conterrâneos The Gift. No tempo que lhe sobra, dedica-se ao estudo da guitarra clássica, aprofundando a sua paixão pelo instrumento, enquanto procura também desenvolver algum trabalho próprio. Depois de um primeiro registo original, edição de autor em 2018, Israel Costa Pereira revela agora a sua profunda admiração pela obra dos The Beatles através de um registo engenhoso, para o qual contou com a colaboração de mais dois experientes guitarristas; Ricardo Martins e Tiago Morin. 

A obra dos The Beatles já foi revista pelas mais variadas e inúmeras formas, ou estilos, e ainda assim continua a servir como uma fonte de inspiração inesgotável. Apesar da formação clássica de Israel Costa Pereira, os The Beatles foram também uma parte importante do desenvolvimento do seu percurso musical, que iniciou, relativamente cedo, pelos meandros do pop/rock. Não é por isso de estranhar o interesse flagrante por uma obra que influenciou o desenvolvimento cultural de várias gerações, um pouco por todo o mundo, e que ainda hoje mantém a sua importância, tal como evidencia este registo.

Os arranjos foram escritos por Israel Costa Pereira e sustentam uma abordagem consistente, de forma livre e dedicada, exigente e purista, com a capacidade total de proporcionar nova vitalidade a estas músicas. São adaptações pouco óbvias, enriquecidas com detalhes muito bem pormenorizados, que os ouvidos mais experientes irão reparar com alguma facilidade - mas também possíveis de reconhecer por ouvintes menos conhecedores - o que torna este trabalho num registo distinto, pleno de riqueza harmónica e de algumas intervenções inventivas ou algo inesperadas. E se a admiração de Israel Costa Pereira pela obra dos The Beatles foi a principal fonte de inspiração; ao nível dos arranjos, e formato, há referências subliminares ao lendário concerto 'Friday Night in San Francisco' que reuniu o fantástico trio de guitarristas Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucia em 1981. 

Considerando a proliferação de versões que existem para o repertório dos The Beatles, a aposta de Israel Costa Pereira poderia ser arriscada em termos de originalidade mas o facto é que se trata de uma abordagem inteligente, ponderada, muito eficaz e original, primorosamente aperfeiçoada pela elegância das três guitarras clássicas. Através de uma breve resenha pode acrescentar-se que: há caráter na abordagem de "Blackbird" e regozijo na simpatia contagiante de "Here There And Everywhere" e "My Life". A diversidade dinâmica de "Get Back" e "Penny Lane" é entusiástica mas o ponto forte encontra-se na incrível "Eleanor Rigby". A beleza da 'simplicidade estrutural' de "Julia" ganha aqui uma relevância enorme, enquanto "Yesterday" aparece mais singela, e o registo encerra com a alegre e divertida interpretação de uma peça tão carinhosa como "When I'm 64".

Para uma experiência audiófila mais atenta, a cuidada distribuição panorâmica do Trio na mistura final permite acompanhar, com muita precisão, a prestação individual de cada um dos elementos, proporcionando uma definição clara e bem percetível das variadas dinâmicas. Tiago Morin está situado à esquerda, Ricardo Martins à direita e Israel Costa Pereira ao centro.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

John Peel - Right Time, Wrong Speed 1977-1987 - VÁRIOS - CD02


01 Atmosphere (Curtis/Hook/Sumner/Morris) - Joy Division   4:07
02 Musette And Drums (Fraser/Guthrie) - Cocteau Twins   4:36
03 There Is A Light That Never Goes Out (Morrissey/Marr) - The Smiths   4:02
04 Over The Wall (McCulloch/Pattinson/DeFreitas/Sergeant) - Echo And The Bunnymen   5:57
05 Party Fears Two (Mackenzie/Rankine) - Associates   5:10
06 The Message (Fletcher/Glover/Chase/Robinson) - Grandmaster Flash & The Furious Five   3:10
07 Hope (I Wish You'd Believe Me) (Wylie) - Pete Wylie And Wah!   4:55
08 Birthday (Eldon/Benediktsson/Gudmundsdottir/Olafsson/Baldursson/Ornolfssdottir) - The Sugarcubes   3:56
09 Good Technology (Kidd/Lewis/Ross/Barlow/Higgins/Rowley) - Red Guitars   4:52
10 All Wi Doin' Is Defendin (Johnson) - Poet And The Roots   3:00
11 Keep On Keeping On (Bottomley/King/Moore) - The Redskins   3:50
12 Release The Bats (Cave/Harvey) - The Birthday Party   2:28
13 The Revolutionary Spirit (Kelly/Simpson/Quinn) - The Wild Swans   4:23
14 Damaged Goods (J. King/D. Allen/A. Gill/H. Burnham) - Gang Of Four   3:25
15 Everyone Thinks He Looks Daft (Gedge) - The Wedding Present   4:05
16 Just Fascination (Kirk/Mallinder) - Cabaret Voltaire   4:06
17 You've Got My Number (Why Don't You Use It) (O'Neil) - The Undertones   2:35
18 Eat Y'Self Fitter (Hanley/Smith) - The Fall   6:33
19 The Trumpton Riots (Blackwell/Blackwell/Lloyd) - Half Man Half Biscuit   3:18

A celebridade de John Peel começou a ganhar expressão por volta de 1968 com as emissões do programa Night Ride na BBC, Radio 1. Em 1976, ano da explosão punk, o estatuto adquirido por John Peel permitia-lhe a autonomia com que geria as emissões do 'John Peel Show', e as bandas que constavam dplaylist, por mais estranhas que parecessem, ganhavam automaticamente o epíteto de 'Peel Band', tornando-se logo relevantes. Por sua vez, as famosas Peel Sessions, que constam de aproximadamente 4.000 gravações ao vivo, em que participaram cerca de 2.000 bandas, e que John Peel gravava e produzia nos estúdios Maida Vale da BBC para usar nos seus programas, ganharam também a importância de registo histórico que testemunha a real passagem dessas bandas pelo 'John Peel Show'. 

O mote 'right time, wrong speed', que dá título a esta dupla edição, refere-se à carinhosa perícia de John Peel em passar, distraídamente, os discos na rotação errada, fosse na rádio ou em sessões como DJ. Para além de um equívoco ocasional, em algumas das vezes o erro devia-se ao facto de John passar maquetes apresentadas com selo branco, sem qualquer informação no disco. Mais atento ao conteúdo do variado material que lhe ia chegando do que aos pormenores técnicos, John preocupava-se em dar o devido espaço às bandas, promovendo as suas obras com gosto e verdadeira dedicação. Do outro lado, estava uma audiência especial que, como ele, ansiava por ouvir música nova, que mais nenhuma rádio passava.

O fascinante desfile de bandas que o 'John Peel Show' ajudou a divulgar continua a deslumbrar ao longo do segundo CD desta dupla edição, com mais uma impressionante sequência de nomes incontornáveis no panorama musical. Joy Division, Cocteau Twins, The Smiths e Echo and The Bunnymen, ressaltam logo à vista como os mais sonantes; Cabaret Voltaire, Associates, The Birthday Party e The Fall, os mais irreverentes; Red Guitars, Gang Of Four e The Undertones, são bandas incríveis; The Wedding Present, The Wild Swans e The Sugarcubes, representam a frescura dos últimos anos do programa. Pelo meio há espaço para os primórdios do hip-hop, com Grandmaster Flash, a habitual presença do reggae, com Poet and The Roots, a simpatia pop de Pete Wylie, a ritmada abordagem soul/rock dos Redskins e o punk/rock dos Half Man Half Biscuit.

Incluídas nesta compilação estão duas bandas que marcavam as preferências de John Peel: 
-The Fall; eram provavelmente a sua banda preferida, ao ponto de John Peel guardar a vasta discografia dos The Fall completamente à parte da restante coleção. A música "Eat Y'Self Fitter", aqui incluída, era uma das suas primeiras escolhas entre os discos a levar para uma ilha deserta.
-The Undertones; são outra das bandas a quem John Peel devotava grande atenção, considerando o EP "Teenage Kicks" como o seu álbum preferido. A música "You've Got My Number (Why Don't You Use It)", aqui incluída, foi editada como single, em 1979, na sequência da edição do primeiro álbum da banda.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

John Peel - Right Time, Wrong Speed 1977-1987 - VÁRIOS - CD01


01 What Do I Get? (Shelley) - Buzzcocks   2:52
02 Alternative Ulster (Burns/Ogilvie) - Stiff Little Fingers   2:41
03 A Forest (Smith/Tolhurst/Gallup/Hartley) - The Cure   5:53
04 Pssyche (Ferguson/Glover/Coleman/Walker) - Killing Joke   5:04
05 Typical Girls (Albertine/Politt/Forster/Romero) - The Slits   3:53
06 Another Girl, Another Planet (Albert/Perrett) - The Only Ones   2:59
07 Just Like Honey (Reid/Reid) - The Jesus And Mary Chain   2:59
08 O Superman (Anderson) - Laurie Anderson   8:20
09 Roadrunner (Richman) - Jonathan Richman And The Modern Lovers   4:41
10 Man Kind (Live) (Tyson) - Misty In Roots   4:36
11 I Can't Stand My Baby (Callis) - The Rezillos   2:21
12 In A Rut (Fox/Jennings/Ruffy/Owens) - The Ruts   3:39
13 Pasi Pano Pane Zviedzo (Munhumumwe) - Four Brothers   5:40
14 New Rose (James) - The Damned   2:41
15 Down In The Tube Station At Midnight (Weller) - The Jam   4:42
16 The Sweetest Girl (Green) - Scritti Politti   6:12
17 Ku Klux Klan (Hinds) - Steel Pulse   3:30
18 Where Were You? (Greenhalgh/Langford/Jenner/Wixey/Lycett/White/Corrigon/Allen) - The Mekons   2:40
19 Life In A Scotch Sittingroom (Volume 2 Episode 6) (Cutler) - Ivor Cutler   3:10    

O radialista britânico John Ravenscroft prevalece na memória de quantos acompanharam religiosamente as suas emissões regulares na BBC, Radio 1, e das inúmeras bandas que divulgou nos seus programas. Tendo iniciado a sua atividade radiofónica em 1961, num período de tempo em que se encontrava a trabalhar em Dallas, EUA, a dedicação à rádio e à divulgação musical, a que se juntam ainda atividades como DJ e apresentação ou promoção de eventos, foi o seu mote de vida até ao seu falecimento em Outubro de 2004. A fase mais reconhecida da sua incessante ligação à rádio situa-se no período de tempo 1977-1987, e diz respeito ao programa 'John Peel', o nome pelo qual será eternamente recordado.

O início do 'John Peel Show' coincide precisamente com a explosão do movimento punk. Motivado pela necessidade de criar algo que tornasse o programa mais interessante, Peel encontrou no punk o combustível perfeito para dar um novo impulso ao seu programa, ao contrário de muitas outras estações que se mantiveram fiéis à vertente mais conservadora das suas audiências e ignoraram a carga de energia insubordinada que emanava das ruas de Inglaterra. É a partir daqui que o nome de John Peel ganha relevância, focando-se na divulgação das inúmeras maquetes que lhe chegavam às mãos e que não punha de parte sem ouvir. O programa acompanhou o período mais importante da evolução da chamada música independente na década de 1980, entre 1977 e 1987.  

Esta edição em formato duplo CD, datada de 2006, pretende celebrar a enorme devoção de John Peel pela música e recordar a importância do seu contributo para a divulgação de bandas de que nunca mais se ouviu falar, assim como de outras que alcançaram patamares mais elevados da hierarquia musical. O alinhamento selecionado, para compor o registo, baseou-se no período de tempo atrás referido e é revelador do gosto eclético de John Peel por diversos estilos de música. De entre momentos chave do punk-rock, como os Buzzcocks, The Damned ou Jonathan Richman and The Modern Lovers, encontra-se aqui o reggae dos Misty in Roots e Steel Pulse, a música Africana dos The Four Brothers, de Zimbabwe, o vanguardismo de Laurie Anderson, a modernidade pop dos Scritti Politti e uma figura hilariante como o poeta Escocês Ivor Cutler. E outros mais ...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Primavera - THE GIFT


 Lado A
1 Black (N. Gonçalves)   4:10   
2 La Terraza (N. Gonçalves/S. Tavares)   4:44
3 Open Window (N. Gonçalves/S. Tavares)   5:34
4 Variação Sobre Primavera I (N. Gonçalves)   1:11
5 Sehnsucht (N. Gonçalves)   4:54
 Lado B
1 Variação Sobre Primavera II (N. Gonçalves)   1:35
2 Blindness (N. Gonçalves/S. Tavares)   4:11
3 Meaning Of Life (N. Gonçalves/S. Tavares)   3:53
4 Variação Sobre Primavera III (N. Gonçalves)   0:54
5 Les Tulipes De Mon Jardin (The Perfect You) (N. Gonçalves)   4:09
6 Primavera (N. Gonçalves)   4:48
7 Long Time (N. Gonçalves)   3:21
   ...
   (... eu vou voltar aqui por ti ... )   1:57

Em 2012 os The Gift voltam a surpreender, com uma obra ímpar e bastante sóbria. Em certa medida, 'Primavera' é o black álbum dos The Gift, aquele registo tão especial que se destaca do restante trabalho de uma banda. Uma autêntica surpresa, semelhante a uma obra concetual, que progride pacientemente na meditação de uma Primavera que, um dia, há-de chegar. As peças estão envoltas em momentos solenes, com a beleza de uma tristeza meditativa, e a "Primavera" anuncia-se vagarosamente em engenhosas variações até à sua aparição final, na plenitude de uma composição mais orgânica relativamente à versão apresentada anteriormente em 'Explode'. 

É um álbum sereno, muito sensível e íntimo, reminiscente de algum romantismo, como um Chopin inconsequente, sem os respetivos detalhes técnicos, em que as peças são dominadas num plano interior que se expõe, na maior parte, pelo aconchego de uma evidente cumplicidade entre a determinação do piano de Nuno Gonçalves e a grave profundidade da voz de Sónia Tavares, contando ainda com a envolvência casual de alguns elementos eletrónicos, vozes em segundo plano ou esporádicas intervenções menos óbvias.

É difícil não lembrar dos The Cure logo à primeira música, "Black". Uma introdução instrumental bem ao jeito da banda Britânica, que os The Gift têm como uma das suas referências. De seguida, o registo entra na afável beleza contemplativa de "La Terraza" e transporta-nos, depois, para o encanto artístico de "Open Window", com direito à inclusão de uma inesperada passagem por um curto trecho cantando em Português. O peso de "Sehnsucht", cantada em Português, acentua o tom monocromático do registo.

A rendição espiritual de "Blindness" destaca-se pela ousadia e singularidade da sua abordagem, relativamente ao andamento das restantes composições do álbum, "Meaning Of Life" recupera a estética que carateriza a natureza do registo e "Les Tulipes De Mon Jardin" agracia a alma com harmonia e uma interpretação emocionante de Sónia Tavares. O registo conclui com "Long Time", em jeito de adágio, onde o ouvinte é ainda surpreendido, após uma pequena pausa, por um curioso apontamento que anuncia um breve regresso.